domingo, 30 de setembro de 2007

Poemas

...a matéria de que são feitos e desfeitos é a do corpo (físico e táctil)
e a do tempo, um tempo lento,
frequentemente o da memória;
são ainda o colo onde a escrita "vem com o tacto",
onde a palavra se torna uma entidade sensorial e o poema,
uma arte de digerir um soco.

Olhar...


...vi os teus olhos
dentro do meu olhar...
devagar,
imensamente devagar...

sábado, 29 de setembro de 2007

O Amor ao canto do bar

A volúpia de um repouso total no odor da menina que coleccionou beijos, lábios, dentes de mamilos ao vento e saltos altos cheios de sorrisos e suspiros...
a luta sublime - touché direito ao coração, direito ao pé esquerdo...
conversas sem fim sobre a palma das mãos embriegadas de cartas de amor.
A recordação de pessoas que apalpam o batimento das ondas com o desejo excessivo das manhãs adormecidas sem segredos.
A casualidade de um vestido de noite maquiado de ciúme que brinda ao tempo a passar, com o seu olhar cego e perfumado.
As flores, e os presentes confessados que se afastam num palpitar curioso de um pulso de mulher.
Os principes protegidos pela música que estremece contra as paredes inquietas da infância.
E esse veludo carmesim, que se desfaz, colado ao espelho do baton que gira à volta das nossas loucuras.
(após espectáculo de Olga Roriz)

quinta-feira, 27 de setembro de 2007

Cartas seladas

Hoje percebi que as linhas precisas da minha mão
não cabem na intensidade dos dias.
Há dias assim, mais frios, mais longos.
Há dias como este,
feitos para apagar os contornos que os braços conheciam,
feitos para mergulhar devagar a ponta dos dedos na palma de outra mão,
para que reaprendam de novo o toque.
Há dias assim, como este,
feitos para selar cartas,
feitos para desatar todos os beijos do meu pulso.

quinta-feira, 20 de setembro de 2007

Pergunto(-me)

Pergunto-me se quem cala apenas pensa no que sente,
se consente,
se se mente,
ou até simplesmente...
não quer saber o que sente.

segunda-feira, 17 de setembro de 2007

Uma cidade em cada mão


Trago uma cidade em cada mão.
Gosto da claridade do néon impregnando as faces brancas; gosto de um ombro e da maneira como o cabelo toca esse ombro, gosto da precária doçura desse instante.
Conheço a urgência do secreto tempo passado num quarto atravessado pelo vento.
Gosto da cor da mão que tacteia, com cuidadosa curiosidade, os lábios gretados pelo frio e a face prateada que contemplo.
...a outra cidade é diferente... a única que consegue derreter o que trago dentro de mim, a única que sopra sempre o mesmo vento e onde as paredes dos quartos acolhem lençóis brancos com a suavidade da pele.
Lá fora, longe destas duas cidades, as casas e os corpos estão errados... mas cansada das palavras, encerro quase tudo em caixas seladas.
Um dia, a pele onde repousava suavemente o medo de ter medo, converter-se-á numa teia de linhas que contarão a história de uma vida...
...porque existe uma zona onde a lingua é o silêncio.
Aí, não te esqueças do que ias dizer-me!...
porque agora não ouço,
porque agora trago uma cidade em cada mão.

7h45


Para trás ficaram...
as notícias das 7... os filhos lavados e vestidos...o pequeno almoço na mesa... o gato alimentado... a máquina da roupa a lavar... as camas feitas... o jantar a descongelar... a lista de compras por comprar... o duche rápido mas quente... a maquilhagem por fazer... um gole de café... uma manta esquecida aos pés da cama... um frasco de perfume por fechar...
um beijo pensado por trocar.